quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

sonho medo

Soldados atrás

do muro.

Eles espreitam.

Silencio fundo.

Ouço passos

lentos de quem avança

com a calma feroz

de metralhadoras.

Soldados que não

me alcançam.

Também no muro

os espreito:

silencio mudo,

de medo.

Era um sonho,

e já não é.

Sinto falta de uma

mulher.

Silencio escuro.

E um soldado a me

olhar fundo,

no olho. Com a raiva

dos cães presos

a noite. Latido e medo.

Vejo um homem que

atravessa uma ponte

às pressas,em fuga.

O vejo longe e

sou eu. Fujo,

com a sombra de

quem traz

às costas assovio

de metralhadoras.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Aos camaradas

Uma saudade incurável

dum inverno no passado.

Dos cheiros que tinham,

das cores que haviam

nas coisas.

Da textura do ar que

roçava nossas peles,

da resistência ultra fina

que nossos pelos ofereciam

ao tato,

ao vento,

ao frio,

ao choro que sentíamos

e não chorávamos.


Saudade abissal dum sorriso

de um camarada, doutro lado

da roda, que confiante

tomava o café

e mirava o futuro.

Saudade da fragilidade corajosa

De nossos dedos em riste.

Saudade

de na sala de casa

cair cansado

certo de levantar

ainda cansado

para lutar.


Saudade do maior inverno

de nossas vidas;

de tantos outros que

sangraremos

a desbravar primaveras.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

poemapoema II

Não há contradição na

poesia e por isso pode

o poeta separar mal os

argumentos, pois nem

eles são necessários.

O poema é desperdício.


Unta-se uma forma rasa

onde coloca o formato;

derrama-se o que pensa,

o que sente, o que acha

que sabe; escreve-se no

vazio branco, decifrando.


A música ajuda com ritmo

pois não é ritmo o poema.

A palavra tem tempo mas

a idéia não, a idéia morre

de fome, a palavra alimenta.

A palavra rege. A idéia toca.


O que incita ao verso não

é o papel branco, João. É

o tédio, a noite morta,

o silêncio e câmara vazia –

quarto de dormir. Quem faz

o verso é o vazio da alcova,

não eu, nem você, nem ele.

domingo, 3 de janeiro de 2010

solitário

Espera pela mensagem

que nunca chega, não

chegará. Dizer que não

disse e que não dirá.

Silencio absoluto.


(Constante entrada

no vazio que nem a vista

alcança. Separação absurda

de letras.)


A repetição do presente:

O movimento reticente de

achar e tornar a perder

repetidamente; como um

sentimento que houvera e

que não há; como um olhar

que haveria e não houve.

Re-tornar a procura.

Re-fazer-se em tortura.


De par em par abrem-lhe as

janelas por onde não olhas.

Ficam correspondências

que nunca chegam, uma caixa

sempre vazia, um canto de casa

em que se guarda os restos.

Um amontoado de tempo,

nem um pedaço de papel,

muitos bilhetes, noites a fio.


(Egoísmo e solidão,

sonho e preguiça,

Que é isso que grita

em mim?)


Carapaça de medo que me fez

querer estender o tempo pra

além dele, me proteger; só fez

errar, deixar passar, prolongar

o caminho que se faz sozinho

por dentro de si mesmo.